Mostrando postagens com marcador ARTIGOS DE ROGÉRIO A. FREITAS PUBLICADOS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ARTIGOS DE ROGÉRIO A. FREITAS PUBLICADOS. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 30 de abril de 2009

A Violência do Outro

A natureza dos sentimentos humanos parece pertencer a um reino no qual a nossa compreensão ainda não ousou chegar, e nisso reside muito da nossa impotência em não conseguir entender algumas atitudes comuns à nossa raça.
Os cientistas costumam afirmar que existem três grandes enigmas a serem decifrados: a gênese universal, o surgimento da vida e a mente humana. Creio, porém, que o maior desafio é ainda o de tentar entender a nós mesmos.
Talvez por isso observemos tanto os outros sem que, contudo, tenhamos desenvolvido a habilidade de nos auto-observar – a não ser quando buscamos no espelho as nossas melhores proporções corporais ou na costumeira análise da vestimenta. Se assim é, residirá, portanto, no orgulho produzido pelo ego, a única motivação para ver a nós mesmos, nem que seja somente a nossa imagem refletida nos espelhos que escondem o mistério da nossa vaidade como também o das nossas frustrações.
Somos os melhores especialistas na observação visual “daquilo que podemos parecer” para os outros, já que nos acostumamos a viver de superficialidades. Mas, provavelmente, não temos conseguido criar a habilidade para ver além das fronteiras das imagens reflexas, pois a espécie humana parece jamais ter conseguido olhar para dentro de si mesma. Afinal, quem de nós consegue avaliar a si próprio, com um mínimo de procedência nos campos da lógica e da justiça? Contudo, medimos o próximo com a medida da nossa ignorância pois que, desconhecendo a nós mesmos, intentamos conhecer os nossos semelhantes – como se nisso residisse a lógica da nossa demência.
Acontecem hecatombes que nos chocam a sensibilidade como também casos isolados que conseguem chamar a nossa atenção, enquanto permanecemos completamente alienados quanto à destruição da vida que cotidianamente ocorre ao nosso redor. Que morram milhares mas se tais mortes ocorrerem pelos fatores de destruição já admitidos como “normais” ou “inevitáveis” pelo nosso psiquismo, que seja, “o mundo é assim mesmo”, costumamos pensar, quando não temos a pretensa ousadia intelectual de dizer isso em alto e bom tom. Porém, quando algo foge à rotina da nossa miséria espiritual e moral, “absurdo dos absurdos”, clamam acertadamente os incautos observadores do caminhar desta humanidade, esquecidos, porém, de acrescentar aos absurdos da vida o que eles próprios julgam como sendo normal e comum.
É deprimente perceber que não mais nos indignamos quando as forças do nosso complicado cotidiano atentam contra a vida de muitos. Isso não nos choca mais porque os nossos já insensíveis valores vêem com estranha normalidade o assassinato diário de milhares de pessoas perpetrados por esta estranha máquina de moer sensibilidades, que é a forma como a vida social se organizou neste mundo. Mas quando uma filha participa da trama do assassinato dos pais, o que é realmente lamentável sob todos os aspectos, nos apressamos a moralmente crucificar o já insepulto cadáver que, ainda vivo, observa a imprensa e as pessoas a patrulharem uma lágrima de arrependimento que seja no seu rosto petrificado pela insensatez.
Enquanto isso, na nossa face, a paradoxal insensatez — ou o que resta ainda da nossa capacidade de se indignar com algo ou alguma coisa — de nos acostumarmos com centenas de mortes estúpidas, as quais diariamente os nossos olhos vêem sem enxergar, ao mesmo tempo em que nos deixamos chocar pelas cores de fatos isolados nos quais a miséria humana atenta contra ela própria, no seu triste império estruturado nos valores do nosso anestesiado psiquismo.
O pior é que, mais que para julgar, dirigem-se as sensibilidades das pessoas no sentido de “demonizar” os miseráveis que, acima da média, assumem-se como sendo, entre os loucos, os mais doidos, pois que matam até os próprios pais. E serão sempre estes últimos a serem apedrejados pelos primeiros que, normalmente esquecem que não existem pedras suficientes na crosta terrestre para satisfazer a sanha de encontrar sempre pessoas ainda mais loucas que nós.
É deplorável como não conseguimos ver no próximo, por execrável que seja a sua atitude, um membro da nossa desgastada família humana, quando é esta mesma família humana que o ajuda a ser o que aparentemente é. Ao que parece, perdemos a noção de espécie, e mal percebemos quão danoso é, para a raça humana, ter entre os seus pares, desesperados que atentam contra a lógica da espécie já que, pelo menos, pai, mãe, filho e filha não deveriam jamais atentar uns contra os outros. O “pelo menos” aparece aqui como fator de aceitação desesperada da percepção de que muitos membros da espécie já aceitam que se mate por este ou aquele motivo. Mas matar o pai e/ou a mãe, o filho e/ou a filha, isto não!
Somo tão imaturos que esquecemos de observar que o germe, por trás do ato de matar ou de destruir, é o mesmo, independente das cores que venham a “sensacionalizar” o estúpido ato de atentar contra a sensibilidade de alguém, seja este alguém quem for. Precisamos urgentemente nos desacostumar em aceitar a morte não natural que cotidianamente marca muitas famílias deste mundo. É imperioso perceber, por trás de cada uma dessas mortes promovidas pela violência urbana, pela disputa entre grupos de traficantes de drogas, pelos conflitos étnicos, enfim, pelas guerras entre nações, os sentimentos do ódio represado e o da falta de compromisso com a vida como fatores desencadeantes da infelicidade planetária. E a grande questão que temos para repensar é: quem determina ou determinou que a vida na Terra tem que ser desse jeito? Os nossos hábitos institucionalizados como normais e aceitáveis — é a triste resposta. E se mais fôssemos aprofundar a questão teríamos que perguntar ainda: como chegamos a esse ponto? Processos educacionais equivocados, ignorância das gerações que na posição de filhos não compreenderam seus pais e quando na posição de pais não souberam educar seus filhos. E assim caminhou e ainda caminha a humanidade: cegos guiando cegos, porém, todos muito orgulhosos das suas capacidades intelectivas para perceber a realidade que os envolve.
A nossa percepção é tão frágil que sempre que algum membro da nossa raça se apresenta como sendo a antítese do que deveríamos ser, identificamos, com absoluta precisão, tudo o que nos diferencia da ovelha negra do momento, produzida pela mídia. No entanto, por covardia moral ou por falta de lucidez, deixamos de perceber o que nos pode assemelhar a esses a quem apontamos como sendo os violentos, os traidores da vida. E na verdade, somos todos violentos e poucas são as exceções na nossa espécie.
Perdemos a noção do que somos, se é que ainda somos alguma coisa enquanto seres humanos, já que o valor que costumamos dar a vida alheia somente salta aos nossos olhos quando a órbita da nossa percepção gira em torno do que tachamos como inaceitável. O problema é que o aceitável para nós é, na verdade, tão inaceitável quanto o que costumeiramente percebemos como tal. A única diferença é que o aparentemente aceitável se veste de aspectos horrorosos e, somente então, despertamos para o que nos causa indignação.
Ora, não deveríamos, em nenhuma hipótese, nos acostumar com a morte não natural de qualquer ser humano. Em tese, não seria cabível que nos permitíssemos distorcer de tal maneira a nossa sensibilidade, para chegarmos no ponto de achar normal “matar na guerra”, posto que os que assim fazem costumam ser homenageados, e ai daqueles que não “cumprirem o seu dever”.
O leitor deverá estar se perguntando se este missivista está defendendo o fato de alguém ser obrigado a ir para uma guerra e não guerrear com o aparente inimigo. Não, não é isso. É muito pior. Porque o germe, por trás desta questão é a estranha doença que nos marca de formular argumentos lógicos para as nossas loucuras enquanto nos inabilitamos a perceber que nada justifica “matar alguém”.
As nossas guerras são estúpidas e poucas delas encontram estrutura lógica diante dos valores que nobilitam a vida na Terra. E as poucas que encontram carecem de terem sido provocadas pela insensatez das nações quando criam vácuos na esperança das pessoas e estas se deixam levar por idiotices ideológicas como por exemplo as do nazismo e do fascismo.
O que deixamos de perceber é que não devem ser somente os “loucos institucionalizados nos poderes deste mundo” que descobrem a lógica e a razão para matar alguém ou muitos, com as suas doutrinas de guerra, mas também os “loucos”, assim avaliados pelos “institucionalizados”, formulam as suas lógicas pessoais e as suas razões para cometer crimes com as chamadas cores fortes da frieza e da insensibilidade humanas. Mas é o mesmo vírus a provocar — tanto nos aparentemente grandes timoneiros da epopéia humana que criaram e criam as guerras como nos solitários assassinos — a febre da loucura e da sanha em matar o próximo. Contudo, o repetimos, os primeiros “demonizam” os últimos como se existissem grandes diferenças entre pertencer a uma ou a outra situação. E muitos de nós, a chamada opinião pública, que pretendemos não ser nem uma coisa nem outra, nos deixamos levar pela onda ativada pela mídia que, sempre apressada, expressa o brilho dos seus aparentes apelos de indignação no varejo, deixando de observar o atacado da multidão de corpos sem vida. Mas, para que adianta contar os cadáveres se o que nos chama a atenção é somente a aparente cor ou o gênero do desastre?
Existem profecias de toda ordem feitas num tempo em que se referiam a um longínquo futuro e eis que estamos vivendo exatamente os tempos preditos pelo Apocalipse, dentre outras fontes proféticas. Ao mesmo tempo em que vemos as torres da esperança de muitos desabarem diante dos olhos atônitos da humanidade, esquecemos de aprofundar a análise do porquê essas coisas terem de ocorrer. Acostumamos a assistir as desgraças ao nosso redor sem que contudo tenhamos nos habilitado a entendê-las. E mesmo sem atinar para a causa das profecias e dos vaticínios referirem-se quase sempre a eventos onde a violência é entronizada pela estupidez humana como a força motriz do nosso desespero, seguimos na nossa dialética infantil conjugada ao mais insensato maniqueísmo classificando o que é o bem e o que é o mal, como se o bem se fizesse representar por quem semeia a exclusão social e a miséria moral em muitas regiões do planeta em nome dos seus pretensos nobres ideais de liberdade. Que tipo de liberdade, se a opressão econômica e política é a tônica das suas ações imperiais?
E o triste é supor que “o lado do bem”, tido por parte da mídia mundial, foi exatamente quem mais promoveu “guerras frias e quentes”, desde a segunda metade do século XX até os dias atuais. E é imperioso perceber que uma atitude doentia de um lado sempre provocará insanidades no lado oposto. Pena que não se perceba o óbvio, ou seja, estamos todos adoentados porque perdemos a capacidade de amar o nosso semelhante; porque conseguimos destruir todos os valores que dão sustentação lógica à vida na Terra, a saber, a honestidade de propósitos e de atitudes, a ternura, a tolerância, a solidariedade, enfim, o respeito à ética e à virtude, tão decantadas pelos filósofos da antiguidade mas completamente esquecidas pelos da atualidade.
O problema não está nessa entidade supra-humana chamada humanidade, o problema está em cada um de nós. O problema não está no outro mas sim em mim mesmo. O problema não está nesta ou naquela nação mas no exercício tacanho de uma cidadania de cunho nacionalista desprovida de qualquer noção mais ampla da espécie que formamos, enquanto família planetária. E o que, neste mundo, é feito em função do ser humano, visando o seu melhoramento?
Será que perdemos a substância do que somos e a referência do que deveríamos ser? Será que perdemos o sabor ou será que ainda temos jeito de observar e viver a vida e, mais ainda, termos a nós próprios como os responsáveis pelo destino do nosso berço planetário e de todos os que nele vivem?
Sou dos que pensam que há algo no nosso íntimo que jamais permite que nos transformemos naquilo que não somos ou, em outras palavras, por piores que possam ser as nossas atitudes, somos seres humanos com uma infinita capacidade de amar e nisso reside a nossa grande herança divina. Os que assim não logram expressar na generalidade das suas relações é porque estão adoentados em algum grau. Sob esta perspectiva, a quase totalidade dos que vivem neste mundo está adoentada. E a tal ponto que aceita como trivial o assassinato diário de milhares de pessoas que possam estar situadas longe das suas sensibilidades pessoais. Porém, se uma só morre no âmbito da sua percepção emocional.., cruz credo, é coisa do demônio.
Por falar nele, coitado! Creio que o ultrapassamos no que sempre se pensou ser ele o mais aquinhoado.
Sinceramente, precisamos criar mais um desempregado neste mundo, já que o mítico demônio deve estar completamente surpreso com tanta maldade e ignorância, pois nem mesmo ele seria capaz de tanta insensatez.


J V Ellam

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Texto escrito por
Rogério de Almeida Freitas
Para a seção Opinião
da revista OQ, de Portugal


Ilusão de Grandeza

Não há maior inconveniente para a evolução pessoal do que a ilusão de grandeza. Muitos pensam ser o que não são, esquecidos de perceber o que, de fato, são. Nessa rota estéril, o estacionamento espiritual é a tônica dos que caminham pela vida terrena enganando os outros e a si mesmos.
Em mundos problemáticos ou subdesenvolvidos, as pessoas que neles vivem normalmente valem não pelo que são, mas sim pelo que representam. Em mundos evoluídos, cada um vale pelo que é, sendo, aos olhos alheios, a exata medida do que é.
Na Terra, o que somos não tem muita importância, desde que representemos bem o papel pretendido e o que concerne aos nossos objetivos, muitas vezes egocêntricos e equivocados. Verdadeiros sepulcros caiados — belos por fora, mas podres por dentro — desfilam as suas impurezas sendo, entretanto, aplaudidos e muitas vezes vistos como heróis disto ou daquilo.
Não existe — o que, segundo alguns, é lamentável —, entre os sentidos do corpo terrestre, um mecanismo qualquer que permita às pessoas perceberem a falsidade alheia, medindo as suas reais potencialidades e intenções. O que é tão fácil de ser percebido noutros mundos, na Terra parece pertencer ao campo da adivinhação, o que, muitas vezes, leva os juízes apressados das verdades alheias a cometerem verdadeiros assassínios de honras pessoais.
É forçoso analisar, no entanto, que talvez seja justamente o elo que nos une, enquanto sociedade, a incapacidade que tem o ser terreno de perceber a verdade que está no íntimo das pessoas. Ressalte-se, por bem da verdade, que muitos não percebem sequer as próprias.
Pensemos, só por alguns instantes, como seria a vida em comunidade se percebêssemos os pensamentos e sentimentos alheios! Seria uma tragédia.
A Providência Divina, seguramente percebendo a doença espiritual que marca toda a coletividade planetária terrestre, nos seus sábios desígnios, formulou, ao longo da evolução, um processo existencial no qual não fosse possível perceber tais coisas, o que nos permite viver em sociedade.
Daí a jactância de muitos em se acharem o que não são, ignorantes de que há outras realidades onde o ser é o que é. Esses, que treinam na Terra o hábito da falsidade vibratória, do engodo — seja próprio ou alheio —, quando perderem a máscara corporal densa e pesada do corpo terrestre, terão que se defrontar com a miséria íntima tão preciosamente escondida e que nos ambientes espirituais é inevitavelmente percebida por todos.
Os líderes do mundo (políticos, religiosos, comunitários e familiares), sejam de que matiz forem, não imaginam o que os espera, em nível de julgamento das consciências, quando deixam a vida terrena. Lá, para onde vão, não se pode enganar ninguém, nem a si próprios. A ilusão de grandeza — que lhes valeu pelos cargos e posições que tinham e não pelas pessoas que eram — transforma-se, inexoravelmente, em miséria existencial.
Todo o tempo é tempo de crescer e de se melhorar a si mesmo, pois somos o que somos e levamos a nossa própria herança espiritual — tendências, inclinações e habilidades — para onde formos. Não nos iludamos.
Texto de Rogério de Almeida Freitas
Publicado na seção Opinião
sa revista OQ de Portugal

Ingenuidade e Ignorância

Define-se o antropocentrismo como a doutrina que considera o Homem como o centro ou a medida do Universo, sendo-lhe por isso destinadas todas as coisas. Em última instância, que pensa assim coaduna-se com as doutrinas finalísticas (deterministas) que ingenuamente supõem que todas as coisas foram criadas por Deus para propiciar a vida humana. Muitos ainda pensam assim.
Carl Sagan ponderava que se o Universo for realmente feito para nós e que se de fato existisse um Deus benevolente, nesse caso a ciência estaria fazendo algo cruel e impiedoso, cuja principal virtude era a de pôr à prova as antigas crenças da humanidade. Mas, se o Universo estivesse alheio às nossas ambições e ao nosso destino, a ciência estaria nos prestando o mais importante dos serviços, ao despertar-nos para a nossa verdadeira situação.
De fato, o que seria da humanidade se ainda estivéssemos vivendo sob a égide da crença fanática, das fogueiras inquisitórias que estacionavam a todo custo a mente humana na mais profunda ignorância antropocêntrica? Quantos homens e mulheres ligados às letras e às ciências tiveram as suas vidas ameaçadas ou foram violentamente obrigados a manterem-se dentro das normas ignorantes da época, por uma simples visão errônea e/ou ótica distorcida dos religiosos que julgavam ser o Homem o centro de tudo?
Hoje, com as descobertas científicas nos evidenciando a sensibilidade existencial, será que ainda é aceitável esse tipo de visão?
No dia 30 de Maio de 1416, Jerônimo de Praga foi queimado vivo por apoiar as teses de John Wycliffe e Jan Huss, que abertamente condenavam diversos aspectos das posturas do clero daquela época.
No dia da sua morte redentora, vendo que uma velha trôpega trazia um feixe de lenha para aumentar a fogueira, sorriu compreensivamente e pronunciou as palavras que passaram à história ”Sancta simplicitas!”
As suas palavras ecoam até os tempos modernos perante toda a presunção terrena. Se não rompermos com a ingenuidade das nossas presunções e com a ignorância dos nossos postulados, o que pode-ria “alguém lá de fora” pensar, ao olhar, sorrindo compreensivamente, para nós — seres terrestres — e para a nossa postura?
Seção Opinião da revista OQ
Rogério de Almeida Freitas
OQ
Diretor: Armando Jorge Carneiro
Editora: Sofia Arnaud
Diretor de Arte: Antônio Mateus
Sede da redação: Rua Rodrigues Faria, nº7, 1300-501 Lisboa — Portugal
Tel. 21 3052282 Fax 21 3652288


Antes de Crer, Compreender


Durante muito tempo existiu o pensamento dominante que afirmava ser impossível ao cérebro adulto de um ser humano criar novos neurônios, sendo, portanto, o processo de envelhecimento celular que caracteriza a “idade madura” sinônimo de perda de inteligência ou, por outras palavras, a diminuição da capacidade de discernir, pensar etc.
A idade adulta traria, inevitavelmente, conforme a opinião reinante, a incapacidade cerebral de produzir bem, já que não se podia substituir os neurônios que iam “morrendo com o avançar da idade”.
Por volta de 1970, esse tabu começou a “cair por terra”, quando a ciência descobriu que em ratos adultos era possível a criação de novas células cerebrais. Assim, a neurogenese foi descoberta e, a partir dos seus postulados e de novas pesquisas, em 1988, verificou-se o mesmo em macacos adultos. Por fim, em 1998, percebeu-se que também nos seres humanos a neurogenese era possível.
No início de 1999, cientistas da Universidade de Princeton, de New Jesrey, nos Estados Unidos, começaram a fornecer os primeiros indícios que comprovam a capacidade do cérebro humano de um adulto em criar novos neurônios através do esforço cerebral e também por meio de exercícios físicos.
Assim, o esforço cerebral só se dá quando questionamos, estudamos, pesquisamos, analisamos criteriosamente temas do nosso interesse, porque apenas estes nos permitem a devida postura no campo da concentração.
Quando não nos esforçamos, através de uma reflexão produtia e persistente, não há atividade cerebral suficiente para que ocorra o processo de neurogenese.
Algumas religiões persistem em exigir dos seus seguidores a aceitação absoluta quanto às “verdades” que lhes caracterizam o conjunto das suas crenças e impedem qualquer tipo de questionabilidade. Na verdade, muitos hereges perderam a vida por terem questionados certos dogmas. Só é aceitável a crença, a dúvida jamais.
A crença, em si mesma, é uma postura íntima que pode levar a um certo comodismo que, por sua vez, produz a inércia mental, já que o cérebro se esforça pouco na pesquisa de uma nova aprendizagem. Dessa maneira, não há exercício cerebral e, não havendo o esforço da mente, sabe-se hoje que a neurogenese não ocorre.
Pode-se, então, conlcuir que a crença, da forma como é praticada na Terra, não faz bem à inteligência, já que não direciona o cérebro para a criação de novas sinapses – ligações nervosas entre os neurônios – que habilitam cada vez mais a inteligência humana na rota evolutiva.
Se não encararmos a nossa fé de forma racional, corremos o risco de transformar o nosso cérebro num instrumento decadente de percepção do mundo em que vivemos. Não foi por menos que a ccodificação espírita chamava a atenção de todos, já no século XIX, para o fato de que “antes de crer, era necessário compreender”.
O que pensar a respeito das posturas religiosas que, numa espécie de anacronismo perpétuo, defendem a crença fanática nos dogmas religiosos, impedindo todo e qualquer raciocínio? Será que, à luz do que hoje se conhece, é benéfico para a nossa inteligência submetermo-nos a qualquer tipo de credo que nos impõe a estagnação cerebral?
Com a resposta, a inteligência de cada um.